16 outubro 2004

Sábado de manhã


Estou na cama do Hotel de L., é a manhã do dia a seguir ao Congresso. Nunca me aconteceu e não se vai repetir. Ficar depois do fim da festa. É sábado de manhã e acordei sozinha na cama do Hotel L. Tinha-me deitado feliz. A minha vida havia de ser sempre assim. Entre Congressos, hotéis confortáveis, um pouco de luxo discreto. Conhecer ao vivo as pessoas interessantes que assinam os artigos míticos da minha bibliografia. Falar-lhes da minha investigação. Imaginar que posso vir a trabalhar com eles, que os convites que me fazem têm validade para lá da mesa do jantar, da conversa ao lado do poster. Agora que acordo tudo passou. Vejo-me no hotel de L., longe da casa onde ninguém me espera. Quando sair para o pequeno-almoço só haverá turistas. Talvez compre um livro no aeroporto. Mas para já estou na cama, imobilizada por uma dor no peito que reconheço. É a aquela estúpida angústia juvenil que me garantiram iria desaparecer com a idade. Estou na cama, dobrada sobre mim própria, como se quisesse comprimir aquela dor absurda, quando a postura correcta talvez fosse deixá-la partir para as extremidades do corpo, dissipar-se pelos membros. No escuro deste sofrimento brilhou sempre a luz agoniante da salvação. Hoje o príncipe encantado é o Mamute. O meu Mamute anjo salvar-me-ia. Havia de vir buscar-me para uma última volta nas Avenidas de L., talvez víssemos finalmente aquele quadro do Museu N. e nos encantássemos. Talvez eu conseguisse fingir ser aquele o meu homem, aquelas as palavras que esperava ouvir, talvez o meu braço no braço dele acreditasse. Talvez, na despedida, ele me desse o mail do Laboratório, e trocássemos mensagens inteligentes onde a recordação desta manhã durasse até ao próximo Congresso. Continuo na cama abraçando o peito como uma bomba que explode à descompressão. Que coisa de mau gosto esta visita do príncipe encantado. Que ia eu fazer com um príncipe encantado. Quero um Mamute descartável. Queria um Mamute que não fosse meu.

sent by//Loreta Granada

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